"Cinegrafista foi mandado para a morte", diz advogado da família da vítima

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Ana Cláudia Barros

A notícia de que o colete à prova de balas utilizado pelo cinegrafista da TV Bandeirantes Gelson Domingos, 46 anos, não garantia proteção contra tiros de fuzil deixou os familiares do repórter “atônitos”. A informação é do criminalista Nélio Andrade, que representa os parentes da vítima. Em entrevista a Terra Magazine, o advogado fez duras críticas à TV Bandeirantes, onde o profissional trabalhava há dois meses.

Na visão de Andrade, Gelson, assassinado numa troca de tiros no último dia 6 quando acompanhava ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) na favela de Antares, em Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro, foi “mandado para a morte”.

- Estar com aquele colete ou de camiseta era a mesma coisa. Só quem tem colete à prova de tiro de fuzil nesta guerra urbana do Rio de Janeiro é a Rede Globo. As outras emissoras não têm. Nem a PM tem. Apenas o Batalhão de Operações Especiais (Bope) é que tem 400 coletes à prova de fuzil. Gelson usava um colete II-A, que só segura tiro de 38, 40, 22. Não segura tiro de fuzil. A placa onde entrou o tiro é um papelão com plástico.

Incisivo, o advogado prosseguiu com as críticas à emissora:

- A Band mentiu claramente. Quando viu que o colete estava comigo e que o sindicato (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro) teve acesso, publicou uma nota, argumentando que nenhum dos dois coletes tem o nível de proteção necessária para deter um tiro de fuzil. A Band ainda disse, em nota, que tinha coletes II-A e III-A e que instruía todos os repórteres e cinegrafistas a usarem o III-A. Então, por que tem o II-A? A nota diz que nenhum dos dois modelos seria suficiente para evitar que o cinegrafista fosse vitimado. Se a emissora admite que nem II-A nem III-A segura um tiro de fuzil, porque mandou o repórter então? No mínimo é uma grande irresponsabilidade.

Nélio Andrade afirma, com base em informações passadas por familiares de Gelson, que o cinegrafista acreditava estar protegido com o colete que usava.

- O Gelson foi para lá ciente de que aquele colete segurava tiro de fuzil. A família comenta isso… que, para ele, aquele colete era à prova de tiro de fuzil. Se eles (a Band) têm ciência que nenhum dos coletes segura tiro de fuzil, então, mandaram esse rapaz para a morte. Ele foi para a morte. Ele foi fazer o quê? Papel de palhaço com aquele colete? Entendo que o empregador tem responsabilidade sobre isso. Talvez os repórteres que usam os coletes nem saibam que os equipamentos não são apropriados para a proteção contra tiro de fuzil.

Para o advogado, é preciso discutir a segurança de jornalistas durante a cobertura de fatos policiais. Ele defende ainda que a liberdade de imprensa não pode ser inversa à garantia da integridade física dos profissionais.

- Tem que haver urgentemente uma reunião entre o Sindicato dos Jornalistas, as polícias Militar, Civil, Federal e o Ministério da Defesa para definir isso. Estamos vivendo uma guerra urbana. Tem que todo mundo sentar e se conscientizar de que vidas de pessoas honradas estão em jogo. Esse rapaz (Gelson) está morto. E agora? – questionou, adiantando quais serão as medidas que pretende adotar:

- Primeiro, vou requerer o assistente de acusação para acusar os marginais, esses facínoras que tiraram a vida dele. Vou pedir indenização para a família. A Band era a empregadora, ela é responsável.

Os detalhes sobre o colete usado pelo cinegrafista morto vieram a público após nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

Em sua primeira nota oficial, divulgada no domingo (6), o Grupo Bandeirantes sustentou que o cinegrafista usava um modelo de colete balístico “de maior capacidade de proteção liberado pelas Forças Armadas para utilização por civis”.

Já na nota apresentada nesta terça-feira (8), a Bandeirantes afirmou:

A Band dispõe de coletes das duas categorias II-A e III-A, modelos de maior capacidade de proteção liberados para uso civil.

A Band instrui todos os seus repórteres e cinegrafistas a utilizarem o III-A, colete usado pelo repórter Ernani Alves, durante a operação.

A emissora não teve acesso ainda ao colete que estava sendo usado pelo cinegrafista, mas lamentavelmente nenhum desses dois modelos seria suficiente para impedir que ele fosse vitimado.

O grupo preferiu não se pronunciar a respeito da declaração do advogado dos familiares de Gelson de que o cinegrafista havia sido “mandado para a morte”.

Fonte:Terra Magazine



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