Justiça decreta prisão de autor do crime e põe fim ao “Caso Eulina”

Crime

Clayton Caetano é o autor do assassinato da advogada aposentada Eulina Maria Jaccoud Andrade. A justiça expediu o seu mandato de prisão no último dia 08, confirmando as investigações feitas pelo delegado Guilherme Eugênio, último responsável pelo caso. Ontem, durante coletiva de imprensa, o delegado contou que “não tem mais dúvidas e as evidências comprovam a autoria”.

O assassinato aconteceu em 16 de janeiro de 2011. Desde então, o clima era de desconfiança e incertezas em relação a autoria do crime. Mas as investigações, que inicialmente levantaram vários suspeitos, chegaram ao fim. “Demorei a acreditar que uma pessoa poderia subir até o quarto andar de um prédio e sair pelo mesmo local. Mas hoje estou convicto. Confrontamos os laudos periciais com as informações passadas pelo réu e não tenho mais dúvidas”, comentou o delegado.

Guilherme Eugênio, na verdade, já se sentia seguro e chegou a afirmar no início deste ano que o autor era mesmo Clayton Caetano, mas iria esperar a manifestação da justiça, que no último dia 08 decretou a prisão dele pelo assassinato de Eulina. A decisão judicial já está disponível no site do Tribunal de Justiça e pode ser lida por qualquer pessoa.

Como o acusado foi pego
Tudo começou com uma conversa entre presidiários. Clayton conversava normalmente com um parceiro de cela, no Centro de Detenção Provisória de Cachoeiro (CDP), onde cumpria pena por estupro e roubo. Na ocasião, um agente penitenciário ouviu a conversa, mas sem entender maiores detalhes, sobre a morte de uma advogada.

O fato chegou ao conhecimento do delegado Guilherme, que se aprofundou na investigação. Depois de levantar diversos dados e se municiar de informações, o delegado foi interrogar Clayton, que confessou tudo.

“São mais de duas horas de gravação. Inicialmente, depois de contar tudo, ele disse que não iria assinar o depoimento, porque queria denunciar maus tratos onde estava preso. Depois, um promotor acompanhou o interrogatório feito oficialmente e ele novamente confessou tudo”, acrescentou o delegado.

Autor do crime contou detalhes para o delegado
Segundo o delegado Guilherme Eugênio, o acusado saiu de casa naquele dia, uma madrugada de domingo, com a intenção de roubar. Não sabia aonde, nem quem. Quando passava pela ponte Carin Tannure, avistou uma escada às margens do rio, que, segundo o delegado, fica ali, deixada por pescadores. Logo em seguida, visualizou a janela do quarto andar aberta e começou a bolar o assalto, já que uma de suas especialidades é escalar para roubar. “A oportunidade fez o ladrão”, ponderou Guilherme Eugênio.

Clayton subiu no telhado de um estabelecimento comercial que fica ao lado da ponte e por ali foi em direção ao prédio. Em cima do detalhado, furou o pé. Quando chegou próximo ao prédio, se agarrou às grades e a um suporte de ar-condicionado do terceiro andar. Dali, conseguiu acessar a área de serviço do apartamento de Eulina, já no quarto andar.

Assim que entrou na residência, arrumou um pano e enrolou o pé para não deixar marcas de seu sangue pela casa. Também tirou a camisa e enrolou a mão, para não deixar suas impressões digitais. Pegou uma faca na cozinha e começou a revirar os objetos.

Avistou a bolsa de Eulina, se apropriou de R$ 150 e um celular. Nesse momento, avistou um cofre no quarto, mas não sabia o que fazer, ainda. Encontrou uma TV portátil e um aparelho DVD.
Mas decidiu ir até o local onde Eulina dormia de luz acessa e tapa-olho, furtou um secador de cabelo e uma chapinha. Então, com o barulho muito próximo, Eulina acordou.
Clayton mandou que permanecesse com o tapa-olho e se ajoelhasse no chão, dizendo a senha logo em seguida. Ela teria resistido e disse que iria gritar, já que ele não teria como fugir dali sem ser visto. Ele colocou a faca no pescoço de Eulina e mandou ela novamente dizer a senha do cofre. Eulina resistiu e ele pressionou a faca contra o pescoço da vítima, cortando profundamente.

Clayton chegou a ir até o corredor, deixando rastro de sangue que pingava da faca pelo caminho. Quando voltou do corredor, viu que havia três pegadas e imediatamente voltou e limpou. “A casa estava toda suja de sangue, mas ele limpou apenas onde havia as pegadas, pensando que o sangue era seu e iria deixar provas”, comentou o delegado.

Depois Clayton pegou outra faca e foi cortar os fios de telefone, na tentativa de retardar a chamada da polícia, caso alguém aparecesse. Ele cortou dois pontos, mas deixou a extensão do quarto funcionando. “Alguém que conhece a casa não faria isso. Iria cortar todos os locais onde houvesse possibilidade de fazer chamada à polícia”, acrescentou o delegado.

O assassino voltou pelo mesmo local, retirou o pano do pé, lavo e deixou pendurado em um varal na área de serviço. Clayton deixou o apartamento pelo mesmo lugar em que acessou. Na hora de pular do telhado de um estabelecimento comercial, ele disse que ainda pediu ajuda para uma pessoa que passava, para que ela segurasse o compartimento onde estavam os produtos do furto: celular, R$ 150, TV portátil, DVD, secador de cabelo e chapinha.

Ele empreendeu fuga. Jogou o celular fora, na avenida Francisco Lacerda de Aguiar, próximo ao trevo onde funciona um posto de gasolina. Escondeu os objetos roubados e foi comprar cigarros. Quando voltou, alguém havia levado tudo, deixando-o sem nada.

A advogada foi encontrada morta por sua empregada doméstica.

“Nós confrontamos todas as informações que Clayton nos passou com os laudos periciais. Tudo convergiu para o mesmo sentido. O caso está concluído”, finalizou.

Delegado chegou a pesquisar sobre a família
Quando a notícia do assassinato surgiu, vários boatos e desinformações apareceram juntos. Desse modo, o delegado disse ontem que chegou a pesquisar familiares, mas nada levava a crer que o crime teria sido cometido por algum conhecido da vítima.

“Pesquisei o que foi possível e não achava nada substancial. Não tinha nada que levava para algum suspeito. Quando mais levantava informações, menos evidências tinham contra quem quer que fosse”, disse.

Homem que achou o celular também chegou a ser suspeito
Como o celular foi um dos produtos do furto, a polícia imediatamente rastreou para saber onde estava localizado. Uma pessoa encontrou e passou a utilizar a linha. Segundo o delegado, mais de R$ 2 mil em ligações foram feitas pelo rapaz que encontrou o aparelho.

“Chegamos a investir nessa pessoa, mas era um sujeito que não tinha nada contra ele. Com o tempo, ficou comprovado que ele tinha apenas encontrado o aparelho celular, jogado fora por Clayton no momento da fuga”, resumiu o delegado.

Entenda o caso
A advogada Eulina Maria Jacoudd Andrade foi encontrada morta com uma perfuração profunda no pescoço na manhã do dia 17 de janeiro, no interior de seu apartamento, localizado no Edifício Primus, no centro de Cachoeiro de Itapemirim, pela empregada ao chegar para trabalhar por volta das 07h30.

Eulina foi encontrada morta dentro do quarto, trajando roupas de dormir. No apartamento não havia sinais de arrombamento. A vítima residia sozinha e nenhum vizinho percebeu algo errado no apartamento.

A hipótese de latrocínio (roubo seguido de morte) no caso havia sido descartada no dia seguinte ao assassinato, após ter sido constatado pelos familiares que nada foi roubado do apartamento. No entanto, dois anos depois, a polícia afirma que foi latrocínio.

A polícia chegou à conclusão de que o autor do crime tinha acesso ao apartamento da vítima, já que as portas estavam trancadas com as chaves por dentro quando a empregada chegou para trabalhar. O prédio onde Eulina foi assassinada tem um setor comercial e residencial. No local não existe circuito interno de TV e o acesso ao residencial é restrito a funcionários e moradores, com fechamento eletrônico, fato que intrigou a polícia durante as investigações.

No dia 04 de fevereiro, o então delegado responsável pelo caso, Eduardo Martelo, entrou com um pedido de prisão cautelar contra empregada da advogada, Siléia Ventura. Ela foi presa após prestar depoimentos contraditórios sobre o assassinato de Eulina. Para a polícia, a contradição nos depoimentos poderia ter sido para atrapalhar as investigações. Siléia trabalhava há seis anos com a vítima. Doze dias depois, a empregada foi colocada em liberdade e o caso corria, desde então, em sigilo.



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