Espírito Santo possui menos de 4% de sua extensão ocupada por áreas de preservação

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O Espírito Santo possui apenas 19,3% de área de Mata Atlântica, das quais menos da metade (8,7%) são remanescentes. Além disso, possui apenas 3,7% de seu território ocupado por área de terras indígenas (TI), unidades de conservação de proteção integral (PI) e de uso sustentável (US). Os índices são os piores do Sudeste que, apesar da grande biodiversidade, possui o maior número de espécies ameaçadas de extinção em todo o país.

Os dados são do relatório Brasil em Desenvolvimento 2013 – Estado, Planejamento e Políticas Públicas, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No Estado, são 122 espécies de fauna e 63 espécies de flora ameaçadas de extinção. Em todo o Sudeste, são respectivamente 391 e 278 espécies, o que torna a região campeã no índice nacional de espécies ameaçadas. O elevado grau de proteção e cobertura de vegetação nativa, gerados por unidades de conservação e terras indígenas, são proporcionais ao nível de proteção da biodiversidade brasileira.

Enquanto isso, o governo do Estado divulga uma parceria entre a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) e a Aracruz Celulose (Fibria) como um meio de “recuperar e preservar os recursos naturais, em especial a água” quando, na verdade, o foco dessa ação está na distribuição de mudas de eucalipto e seus respectivos insumos agrícolas. Como se sabe, a usurpação do solo capixaba com os intensivos plantios de eucalipto e o grande uso de agrotóxicos nesse tipo de lavoura contribuem para a desertificação do solo e para a diminuição da biodiversidade.

O estudo aponta que o intenso processo de ocupação territorial e, consequentemente, o intenso desmatamento para uso agropecuário e urbano estão diretamente relacionados aos mais alarmantes números de espécies ameaçadas de extinção no país. O relatório destaca que, em mais de cinco séculos de ocupação, os diversos ciclos econômicos relacionados à exploração de commodities fizeram com que a biodiversidade da Mata Atlântica no Sudeste fosse severamente danificada. Apesar disso, os níveis de biodiversidade correspondentes a esse bioma ainda são extremamente elevados.

No Espírito Santo, contribuiu principalmente para este quadro a Aracruz Celulose (Fibria). Somente na fase de implantação da empresa, na ditadura militar, 50 mil hectares de Mata Atlântica primária ou em avançado estado de regeneração foram devastados, de uma só vez. Para preparar o terreno aos seus extensos plantios de eucalipto, matéria-prima por excelência da celulose e que fica pronta para produção entre cinco e sete anos (na Europa são décadas), a Aracruz avançou sobre a mata com dois correntões puxados por dois tratores de esteira. Animais que não tinha tempo de correr eram esmagados, depois viriam o mau cheiro e o fogo. Muitos animais morreram também carbonizados, e a fauna e a flora foram destruídas, o que afetou drasticamente a biodiversidade. O crime teve início no município de Aracruz, onde a empresa primeiro avançou sobre os territórios indígenas, e depois para as terras quilombolas no norte do Estado, hoje completamento tomado pelo eucalipto.

O estudo também aponta que os estados com maior número de espécies ameaçadas abrigam mais instituições destinadas a conservar a biodiversidade fora de seu ambiente natural. O Espírito Santo, apesar de ter a mais ameaçada faixa de Mata Atlântica, possui apenas quatro repositórios ex situ, ou seja, unidades de conservação fora dos ambientes naturais (como zoológicos e jardins botânicos). Em São Paulo há 65 instituições com esse fim; Minas Gerais tem 17, e o Rio de Janeiro seis. O estudo não cita quais são essas instituições.

A predominância dessas instituições nos estados ocorre onde já maior quantidade de especialistas no assunto e maior demanda por visitação, como retrata o relatório. Entretanto, salienta que, mais do que os esforços destinados à conservação, a histórica vocação para a finalidade educacional e recreacional faz com que existam poucos programas de conservação das espécies ameaçadas e que a maioria deles não seja integrada. O estudo declara, ainda, que a criação de um sistema nacional de conservação fora dos ambientes naturais prova que iniciativas nesse sentido são perfeitamente viáveis.

O Estado, aliás, possui a menor classificação de todo o país no Índice de Conservação da Biodiversidade (ICB), que reflete as condições para conservação. O Espírito Santo é o único no país abaixo da pontuação de 0,300, acumula apenas 0,291 pontos, enquanto o campeão, o Amapá, possui 0,831. “No conjunto, o Espírito Santo apresentou elevado número de espécies de flora e da fauna ameaçadas de extinção, poucos repositórios ex situ, baixa cobertura de áreas protegidas e de remanescentes de vegetação nativa”, consideram.

Diante desse cenário que considerou “desolador”, o especialista em políticas públicas Roberto Garcia Simões, em sua coluna publicada nesta terça-feira (29) no jornal A Gazeta, questiona quais projetos possuem investimentos necessários para sustentar a biodiversidade no Estado e, principalmente, qual é o real significado de desenvolvimento sustentável. “A cobertura natural foi devastada, a biodiversidade lapidada – sem sem conhecê-la”.

Para Garcia, diante desta “posição de negação da biodiversidade no Estado”, Garcia Simõea ressalta a necessidade de criação de áreas especialmente protegidas, ações, planos e programas voltados para a gestão da paisagem, a criação de mosaicos de unidades de conservação, e a implantação de corredores ecológicos associados à recuperação e restauração de áreas degradadas.

Atlas

Os números apresentados pelo relatório do Ipea sobre área total de Mata Atlântica no Espírito Santo diferem, inicialmente, daqueles apresentados anualmente no Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, uma iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Nos últimos anos, o estudo têm apontado que restam apenas entre 10,5% e 11% de mata nativa no Estado.

Mas vale lembrar que as imagens que identificam os remanescentes florestais nesse estudo são captadas por satélite, metodologia em que podem ocorrer prejuízos em decorrência da cobertura de nuvens.

fonte: Século Diário



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