Síndrome da apneia obstrutiva do sono atinge mais mulheres na pós-menopausa

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Uma pesquisa com 407 mulheres, realizada pelo Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo, constatou que com o envelhecimento natural da mulher há a perda da função ovariana e uma série de consequências negativas à saúde, sendo as disfunções respiratórias do sono, como a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), muito relevante no contexto clínico.
A SAOS é um distúrbio de sono que acomete um terço da população, em qualquer período da vida, mas principalmente mulheres após a menopausa. É caracterizada pelo colapso repetitivo, parcial ou completo da via aérea superior que, durante o sono, esse distúrbio promove mudança no padrão ventilatório e aumento na frequência de despertares.
Após análise dos resultados, os autores observaram 68,4% das mulheres que tiveram o diagnóstico confirmado para o tipo mais grave desse distúrbio de sono estavam em pós-menopausa tardia. Além disso, os pesquisadores descobriram que a medida de 87,5 cm de circunferência de cintura foi capaz de identificar voluntárias que tinham a SAOS em relação às mulheres que não tinham o distúrbio de sono, com uma taxa de acerto superior a 75%.
Daniel Ninello Polesel, farmacêutico e autor da pesquisa, descreve o resultado de sua tese de doutorado e explica que o estudo apresenta uma evidência científica elevada, pois a amostra foi representativa da cidade de São Paulo, de acordo com idade, gênero e estado socioeconômico.
“Havia evidências científicas que sugeriam que a queda nos hormônios femininos, característico da pós-menopausa, causaria o aumento da frequência de SAOS. E de fato, nosso estudo comprovou essa suspeita, demonstrando o potencial negativo do hipoestrogenismo, decorrente da diminuição nos níveis de estradiol, no sono e aumento da SAOS em uma amostra representativa da maior metrópole brasileira. Outro importante achado foi a identificação de variáveis que podem ser utilizadas com maior precisão no diagnóstico de distúrbio de sono nestas mulheres, como medidas antropométricas, principalmente o índice de massa corporal e a circunferência de cintura. Nesta avaliação, a circunferência de cintura se mostrou mais relevante”, explica Polesel.
A medida encontrada pelos pesquisadores é muito próxima àquela considerada como referência em outras doenças, como a síndrome metabólica (88 centímetros). “Esse resultado vai ao encontro da busca internacional por biomarcadores simples, baratos e eficientes, devido sua facilidade, praticidade e com boa taxa de acerto ao discriminar uma grande quantidade de indivíduos, suspeitos ou não da doença. A definição de uma medida referencial da circunferência de cintura para a avaliação do risco de apneia traz benefícios imediatos para a saúde da mulher, tanto no sistema público, como no privado”, ainda esclarece o autor da pesquisa.
As diferenças encontradas foram potencialmente relacionadas à obesidade (identificada pela circunferência da cintura) e pelo processo natural do envelhecimento e dos fatores hormonais (estágios pós-menopausais). O aumento a cada centímetro na circunferência da cintura representou um aumento de 6% na razão de chance para apresentar a disfunção.
Menopausa e alterações
A frequência dos distúrbios de sono aumenta a partir da transição menopausal e do estágio de pós-menopausa tardia. Dentre as queixas mais relevantes relacionadas ao sono estão: a insônia, a baixa eficiência de sono, dificuldade de manter o sono, a irregularidade no padrão respiratório, sensação de “ondas” de calores e suores frequentes.
Fisiologicamente, o período de transição menopausal e pós-menopausa são parte do processo natural de envelhecimento da mulher. Por isso, a circunferência de cintura pode ser um parâmetro indicativo de necessidade de alteração por intervenções médicas e a escolha de hábitos de vida mais saudáveis.
A médica ginecologista Helena Hachul de Campos, pesquisadora na área de Sono na Mulher e orientadora do estudo, explica que o início desses sintomas está diretamente relacionado à queda da concentração dos hormônios estrogênio e progesterona, ambos decorrentes da falência ovariana. “A partir da queda hormonal que é fisiológica, o organismo feminino fica sujeito a consequências negativas a saúde, como o desenvolvimento de osteoporose, alterações qualitativas na pele, aumento do risco cardiovascular e da incidência de distúrbios respiratórios do sono. ”
Ela ainda reforça que em mulheres o contexto é mais grave dada a dificuldade de diagnóstico do distúrbio de sono, em razão da frequência maior no relato de sintomas não específicos. “Por isso, há maior risco de complicações clínicas e uma elevada demanda no uso de serviços de saúde.”
Metodologia
As 407 voluntárias da pesquisa, com idades entre 20 a 80 anos e moradoras da cidade de São Paulo, passaram por uma avaliação geral, foram submetidas à aplicação de um exame de polissonografia completa durante uma noite inteira (método padrão para avaliação dos distúrbios de sono) e coleta de amostras de sangue para análises bioquímicas posteriores.
Para avaliar os fatores associados a esse distúrbio de sono, as voluntárias do estudo foram distribuídas de acordo com seu ciclo reprodutivo, sendo assim compostos os seguintes grupos: 268 mulheres na pré-menopausa, 43 na pós-menopausa recente (até cinco anos da menopausa) e 96 na pós-menopausa tardia (mais de cinco anos da menopausa).



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